Longa de estreia de Cíntia Domit Bittar acompanha mulheres reunidas em um retiro cristão e expõe os efeitos do controle, do conservadorismo e da intolerância
Ambientado em um exclusivo retiro voltado para mulheres cristãs, Virtuosas transforma a busca por aperfeiçoamento espiritual em um pesadelo marcado por paranoia, violência e fundamentalismo. Primeiro longa-metragem de ficção da diretora catarinense Cíntia Domit Bittar, o filme chega aos cinemas depois de circular por festivais nacionais e internacionais.
Produzido pela Novelo Filmes e distribuído pela Olhar Filmes em parceria com a Filmes do Estação, o longa é protagonizado por Bruna Linzmeyer, que interpreta Virgínia Heinzel, uma influenciadora e coach dedicada a pregar os valores tradicionais associados à chamada “mulher virtuosa”.
Durante o retiro, Virgínia está acompanhada de Germina, interpretada por Maria Galant; Lorena, vivida por Juliana Lourenção; Bárbara, personagem de Sarah Motta; e Gorete, interpretada por Brisa Marques. O que inicialmente parece ser uma experiência de aprimoramento pessoal e espiritual logo dá lugar a um ambiente de desconfiança, tensão e escolhas extremas. O elenco também conta com participações de Gabriel Godoy, Nenê Borges e Fernando Bispo.
O horror baseado na realidade

Em vez de recorrer aos elementos tradicionais do terror sobrenatural, como fantasmas e demônios, Virtuosas constrói seu horror a partir de fenômenos sociais contemporâneos. O roteiro foi desenvolvido com base em uma extensa pesquisa sobre discursos fundamentalistas e negacionistas, além de movimentos que defendem o retorno a papéis tradicionais de gênero.
Para Cíntia Domit Bittar, o projeto nasceu de uma inquietação diante dos retrocessos sociais e do avanço de discursos autoritários.
“O desejo de trabalhar o terror nesse contexto temático nasceu de um misto de fascínio e medo genuíno que sinto, como mulher feminista, do retrocesso, do negacionismo e do fundamentalismo religioso.”
A diretora afirma que muitas situações apresentadas no filme foram inspiradas em acontecimentos e discursos reais. Segundo ela, a intenção não foi exagerar ou ridicularizar determinadas visões de mundo, mas revelar como ideias aparentemente extremas podem estar presentes no cotidiano.
Com ritmo slow burn, o longa combina suspense psicológico, humor ácido e desconforto crescente. A tensão não se estabelece apenas por meio de acontecimentos sobrenaturais, mas também pelas relações entre as personagens e pelas consequências de um sistema baseado em controle, julgamento e obediência.
“Eu, como ateia, tenho mais medo das maldades terrenas que as pessoas são capazes de cometer do que de fantasmas e demônios”, afirma a cineasta.
A “mulher virtuosa” e o movimento Trad Wife

O conceito que dá nome ao filme tem origem em uma interpretação do capítulo 31 do livro bíblico de Provérbios. Na narrativa, a “mulher virtuosa” é associada a valores como dedicação à família, submissão ao marido, castidade e responsabilidade doméstica.
Nos últimos anos, essa visão ganhou força nas redes sociais por meio do movimento conhecido como Trad Wife, abreviação de traditional wife, ou “esposa tradicional”. O fenômeno reúne mulheres que defendem um modelo de vida baseado na divisão rígida dos papéis de gênero e na centralidade do marido e da família.
Bruna Linzmeyer avalia que o problema não está na escolha individual por esse estilo de vida, mas na tentativa de apresentá-lo como a única forma legítima de exercer a feminilidade.
“O problema é quando esse lado é visto como a única possibilidade de ser mulher”, afirma a atriz.
A discussão também se estende à moralidade das personagens. Para Juliana Lourenção, o filme não pretende estabelecer uma oposição simples entre mulheres virtuosas e mulheres transgressoras, mas provocar uma reflexão sobre o caráter e as contradições de cada uma.
“Não interessa se você é uma mulher virtuosa. O que a produção faz questão de abordar é a índole dessas personagens”, destaca.
Mulheres complexas no cinema de terror
Ao construir personagens femininas ambíguas, Virtuosas se distancia de alguns dos arquétipos mais recorrentes do terror, como a vítima indefesa ou a chamada final girl — a sobrevivente virtuosa que chega ao fim da história.
Na visão de Cíntia Domit Bittar, o olhar feminista no cinema de gênero também pode explorar mulheres capazes de agir com crueldade, contradição e egoísmo.
“Criar mulheres ambíguas, por vezes sem qualquer escrúpulo, é também trazer humanidade para o cinema”, explica.
A diretora defende que o terror oferece liberdade para abordar conflitos sociais de maneira mais contundente. Ao recorrer ao absurdo, ao estranhamento e ao medo, o gênero consegue expor estruturas de poder que, em uma narrativa realista, poderiam ser apresentadas de maneira menos incisiva.
Para a produtora Ana Paula Mendes, da Novelo Filmes, o filme aborda um tema ainda pouco explorado pelo cinema brasileiro, embora esteja presente na vida de milhares de mulheres.
“O movimento de mulheres cristãs conservadoras de classe média está cada vez mais presente, inclusive na política institucional do país”, afirma.
Trajetória internacional

Antes de chegar ao circuito comercial, Virtuosas teve uma trajetória de destaque no mercado audiovisual. O projeto foi selecionado para o programa Goes to Cannes, realizado durante o Marché du Film do Festival de Cannes de 2025, entre cinco produções brasileiras apresentadas por meio de edital do Ministério da Cultura.
No Brasil, o longa estreou na Première Brasil do 27º Festival do Rio e integrou a programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Na Mostra, recebeu o 3º Prêmio Netflix.
Como parte do reconhecimento obtido no evento paulista, Virtuosas será lançado globalmente pela plataforma de streaming após o encerramento de sua janela de exibição nos cinemas. A produção estará disponível em mais de 190 países, com opções de dublagem e legendas.
Ao combinar crítica social, suspense psicológico e horror, o filme de Cíntia Domit Bittar amplia a presença do cinema de gênero dirigido por mulheres no Brasil e transforma o medo em uma ferramenta para discutir fundamentalismo, controle e os limites impostos à autonomia feminina.
