O They Will Kill You, lançado no Brasil como Eles Vão Te Matar, é o primeiro filme em inglês do diretor Kirill Sokolov — e ele não tenta suavizar sua identidade para isso. Pelo contrário: entrega um longa barulhento, violento e cheio de personalidade, que prefere o exagero à sutileza.
A premissa já entrega o tom. Uma mulher responde a um anúncio misterioso para trabalhar como governanta em um prédio de luxo em Nova York. Só que, ao chegar, descobre que funcionárias desaparecem ali há décadas — e ninguém parece muito interessado em explicar o motivo.
Não demora pra entender: tem algo muito errado naquele lugar.
Família perfeita… só que de mentira
Logo na abertura, o filme deixa claro o tipo de história que quer contar. A imagem de uma família feliz reunida à mesa é quebrada quando percebemos que aquilo não passa de uma vitrine com manequins — uma representação artificial de felicidade.
Do lado de fora, duas irmãs observam essa cena, completamente deslocadas daquela realidade.
Essa ideia atravessa o filme inteiro: a noção de família como algo construído, vendido… e muitas vezes falso.
Quando a busca vira sobrevivência

Anos depois, a história acompanha Asia, vivida por Zazie Beetz, tentando encontrar sua irmã desaparecida, Maria (Myha’la). O caminho leva direto para o tal prédio — e é aí que o filme se transforma.
O que começa como mistério vira rapidamente um jogo de sobrevivência.
E aqui, o longa encontra sua força: quando para de explicar e simplesmente deixa o caos acontecer.
Violência estilizada com DNA de Kill Bill
Se tem uma coisa que define Eles Vão Te Matar, é o estilo.
A influência de Kill Bill: Volume 1 é escancarada — não só na violência estilizada, mas no ritmo das cenas, nos enquadramentos e até na forma como a ação é construída.
É tudo muito coreografado, quase performático.
A câmera acompanha esse ritmo com precisão, criando sequências intensas sem perder clareza. Existe um cuidado evidente em como cada golpe, cada movimento e cada impacto são mostrados.
E isso faz diferença.
O prédio como personagem
Um dos maiores acertos do filme está na ambientação.
O prédio não é só cenário — ele funciona como um personagem.
Cada corredor, cada sala, cada espaço parece esconder alguma coisa. A cenografia é rica em detalhes e trabalha muito bem a sensação de confinamento e perigo constante. Em alguns momentos, a composição dos ambientes chega perto de algo teatral, o que reforça ainda mais o clima estranho e desconfortável.
O desenho de som também ajuda bastante nisso.
Cada passo, cada impacto, cada silêncio é valorizado. Isso aumenta a tensão e deixa tudo mais imersivo, principalmente nas cenas mais intensas.
Exagerado… e consciente disso
O filme claramente passa do ponto em vários momentos.
Seja nos efeitos, na violência ou até na lógica de algumas situações, tudo é levado ao extremo. Mas, curiosamente, isso não joga contra o longa.
Pelo contrário.
Esse exagero acaba virando parte do charme. Em um cenário cheio de filmes mais “seguros” e padronizados, Eles Vão Te Matar prefere ser caótico, irregular e até um pouco absurdo.
E isso dá personalidade ao filme.

O elenco entra completamente na proposta.
Zazie Beetz segura bem o protagonismo, principalmente nas cenas físicas, que exigem bastante entrega. Já Myha’la complementa a carga emocional da história, mesmo dentro de uma narrativa mais voltada para ação.
Mas vale destacar também o trabalho coletivo: existe uma sensação de que todo mundo ali entendeu o tipo de filme que estava fazendo — e isso ajuda muito.
Outro ponto forte é a equipe de dublês.
As cenas de ação têm impacto justamente porque parecem físicas, reais, com peso. Isso torna até os momentos mais absurdos… mais convincentes.

Crítica social presente, mas não aprofundada
O filme também flerta com comentários sociais.
A protagonista é uma mulher negra da classe trabalhadora enfrentando uma elite rica, violenta e excludente. O prédio funciona quase como uma metáfora dessas estruturas — um espaço fechado onde as regras já estão definidas.
Mas o roteiro não aprofunda tanto essa discussão.
Ele apresenta, provoca… mas não desenvolve totalmente. E isso pode deixar a sensação de que havia mais ali pra explorar.
Vale a pena?
Eles Vão Te Matar não é um filme equilibrado.
Mas também não quer ser.
É exagerado, violento, estiloso e, em muitos momentos, até caótico demais. Só que justamente por isso, se destaca. Em meio a produções cada vez mais parecidas, ele entrega algo com identidade.
Pode não funcionar pra todo mundo…
mas dificilmente vai ser esquecido.
mas dificilmente passa despercebido.
