Depois de conquistar o Oscar com Nomadland e enfrentar o turbulento lançamento de Eternos no MCU, Chloé Zhao retorna ao cinema autoral com sua produção mais tocante até agora. Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não só confirma a sensibilidade da diretora como também redefine o que entendemos por drama histórico. Se existisse uma imagem no dicionário para “emocionante”, provavelmente seria um frame deste filme.
Uma história conhecida — mas que ganha nova vida nas mãos de Zhao
O longa acompanha a jornada de Agnes (Jessie Buckley), mulher marcada pelo misticismo, e Will (Paul Mescal), um jovem tutor subestimado que, mais tarde, o mundo conheceria como William Shakespeare.
O romance entre eles nasce quase como destino: ela, profundamente ligada à natureza e conhecida como uma “bruxa da floresta”; ele, reprimido pelo pai e deslocado em sua própria família.
Contra opiniões contrárias, eles se casam e constroem um lar amoroso com seus três filhos — Susanna, e os inseparáveis gêmeos Hamnet e Judith. Porém, com a chegada de uma doença devastadora, o luto atravessa a casa e muda para sempre o caminho da família, servindo como ponte emocional para a criação de Hamlet.
Ainda assim, Zhao deixa claro: este não é um filme sobre Shakespeare. Seu nome completo só aparece mais tarde, e sua obra surge como ecos, símbolos que vão costurando a narrativa. O interesse da diretora está na alma dessa história — não na biografia.
Um drama sobre amor, pertencimento e a forma como enfrentamos a dor
Assista com lenços na mão. Não é exagero.
A diretora equilibra delicadeza e brutalidade em um tom que só ela consegue alcançar. O filme mantém a estética minimalista de Nomadland, mas inclui uma intensidade humana quase arrebatadora.
Através de Agnes, inserem-se toques de realismo mágico: suas visões simbólicas do futuro, sua fusão com a floresta, a forma como veste sempre vermelho — um contraste marcante contra os cenários frios da cidade. Tudo isso é resultado do refinado trabalho conjunto com o diretor de fotografia Lukasz Zal (Zona de Interesse) e a figurinista Malgosia Turzanska (Pearl).
Mas Hamnet não é sobre poderes.
É sobre pertencimento:
- Agnes e Will encontrando um no outro aquilo que o mundo não vê;
- Os gêmeos vivendo como duas metades de um todo;
- A família tentando se manter unida enquanto o chão desaparece sob seus pés.
Quando a tragédia acontece, cada membro precisa reconstruir seu lugar no mundo. Will acredita que o filho não pode simplesmente ter sumido. E é dessa busca que nasce a arte — a única linguagem que consegue dar forma ao que não conseguimos compreender.
No teatro, pai e filho trocam de lugar.
Na arte, Agnes encontra um caminho para retomar o fôlego.
Jessie Buckley e Paul Mescal são devastadores
O filme carrega um dos elencos mais fortes do ano:
Jessie Buckley
Surreal, delicada e feroz. Buckley transforma Agnes em uma figura mística e, ao mesmo tempo, profundamente humana. Seus olhares carregam medo, amor, fúria, resignação — especialmente na sequência final do teatro, que já nasce clássica.
Paul Mescal
O “homem que faz plateias chorarem” entrega mais uma performance monumental. Mescal transita entre o deslumbramento de um jovem apaixonado, a confusão de um homem tentando encontrar seu lugar e o desespero silencioso de um pai em luto. Ele e Buckley formam um par cinematográfico digno de poesia.
As crianças também impressionam — especialmente Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet com uma sensibilidade absurda. Sua presença é tão marcante que a primeira lágrima não vem dos adultos, mas dele.

Uma obra-prima sobre memória, maternidade, perda e eternidade
Mesmo conhecendo a história previamente, Hamnet atinge o espectador em cheio. É um filme sobre amor, sim, mas também sobre o que resta depois que ele é quebrado. Sobre o peso da ausência. Sobre a necessidade humana de preservar, de transformar dor em criação.
A direção de Zhao — que divide a montagem com o editor brasileiro Affonso Gonçalves — conduz a narrativa como quem segura um coração com cuidado e brutalidade ao mesmo tempo.
A menção precoce ao mito de Orfeu e Eurídice já prepara o destino trágico da história. E quando chega, não há como escapar: é impossível não se emocionar. Muitos cinemas chegaram a oferecer lenços antes da sessão — e não foi à toa.
⭐ Veredito
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um dos filmes mais poderosos dos últimos anos.
É uma obra que transcende a biografia, o romance e até mesmo o luto, para falar sobre aquilo que faz a arte sobreviver ao tempo.
Zhao entrega um filme que não apenas toca — ele marca.
O retorno de Chloé Zhao (‘Nomadland’) é um drama baseado no best-seller de Maggie O’Farrell, imaginando o luto de William Shakespeare (Paul Mescal) e sua esposa Agnes (Jessie Buckley) após a morte do filho. Notas: RT: N/A | IMDb: N/A
Notas: RT: N/A | IMDb: N/A
