Pluribus, nova aposta da Apple TV+ assinada por Vince Gilligan, chega como o evento televisivo mais comentado do ano — e por boas razões. Depois de redefinir o drama criminal com Breaking Bad e Better Call Saul, o roteirista surpreende ao abandonar o terreno do crime organizado para construir um híbrido ousado de ficção científica, suspense psicológico e noir moderno.
Logo na abertura, Gilligan deixa claro que está brincando com outras regras. Vemos a famosa escritora Carol Sturka — interpretada com precisão cirúrgica por Rhea Seehorn — autografando livros e posando para fotos. Minutos depois, dentro de um carro escuro, ela desaba: despreza sua própria obra e a persona que precisa sustentar diante do público. Há algo quebrado ali, algo que antecede o caos prestes a acontecer.
Enquanto isso, em um laboratório distante, uma cientista é mordida por um rato. Um espasmo violento atravessa seu corpo e, então, surge um sorriso inquietante — infantil e perturbador. Pouco tempo depois, esse mesmo sorriso começa a aparecer nos rostos dos clientes de um bar onde Carol e sua parceira Helen (Miriam Shor) fazem uma parada. O mundo desaba em minutos: incêndios à distância, apagões em massa e um surto global. Mas não é uma epidemia de terror clássica. Não são zumbis. Não é um vírus mortal.
É algo mais desconcertante: uma infecção que torna todos… felizes.
Excessivamente felizes.
Carolina, porém, permanece imune — talvez porque, ironicamente, carrega uma tristeza profunda que antecede qualquer contágio.
Uma protagonista quebrada em um mundo “perfeito”
Carol, sempre desconfiada e sempre cansada, enxerga a súbita alegria coletiva como uma ameaça. E Gilligan aproveita essa perspectiva para construir uma protagonista rara: alguém que odeia o mundo, as pessoas e, principalmente, a si mesma — e que, por isso, parece ter escapado de um destino que alcançou o planeta inteiro.
A chegada de Zosia (Karolina Wydra), designada como sua “acompanhante” pelo novo sistema social pós-surto, abre caminho para uma dinâmica fascinante. Zosia é o oposto absoluto de Carol: luminosa, gentil, paciente, quase hipnótica. O conflito entre as duas é magnetizante — uma relação de repulsa e fascínio que gera algumas das cenas mais intrigantes da série.

Quando o noir encontra a ficção científica
Determinada a entender por que não foi “convertida”, Carol sai pelas ruas em noites de luzes neon, invadindo lugares, bebendo demais e investigando pistas congeladas em meio a uma cidade que já não parece a mesma. É aqui que Pluribus abraça sua veia noir:
vias escuras, contrastes fortes, longas sequências silenciosas em que Carol vaga pela madrugada como se perseguisse seus próprios fantasmas.
De dia, o cenário muda completamente: tudo parece excessivamente limpo, organizado, quase artificial — uma estética que lembra um simulacro do mundo real.
E como sempre, Rhea Seehorn é um espetáculo à parte. Sua performance captura uma mulher esgotada pela vida, lutando para não se render a um otimismo invasivo que ela considera uma ameaça existencial.
Gilligan em sua fase mais ousada
Embora outros personagens circulem pela história, Pluribus é, na prática, um grande monólogo emocional interpretado por Seehorn. A série se dedica menos ao mistério do vírus e mais ao impacto psicológico dessa felicidade compulsória — e do que significa existir à margem dela.
Com conflitos cessados e um planeta “pacificado” de forma artificial, a própria infelicidade de Carol vira sua fonte de impulso. Sem ela, resta o vazio. E para preenchê-lo, Carol cria inimigos imaginários, teorias improváveis e uma conspiração que parece absurda… até deixar de parecer.
Um começo excepcional para uma série que promete marcar época
Com sete episódios exibidos para crítica, Pluribus se firma como uma das produções mais instigantes do ano — uma mistura elegante de paranoia, melancolia, humor soturno e ficção científica existencial.
Com a segunda temporada já em desenvolvimento, a série pode muito bem se tornar o novo marco da Apple TV+ — assim como Breaking Bad moldou uma década inteira da TV contemporânea.

