Tem coragem Não Notícias Como o lendário escritor Alan Dean Foster lutou por seu crédito em Star Trek: O Filme

Ainda ativo até os dias de hoje, Alan Dean Foster escreveu inúmeros romances originais de ficção científica e adaptações de franquias populares do gênero. Os fãs de “Star Wars” o conhecem como o escritor fantasma de “Star Wars: Das Aventuras de Luke Skywalker” (1976), creditado a George Lucas, e como o autor de “Splinter of the Mind’s Eye” (1978), entre outros. Ele também adaptou para livros os filmes da franquia “Alien”, “O Exterminador do Futuro: A Salvação” e “Transformers”, além de obras como “O Abismo Negro”, “Krull”, “O Último Guerreiro das Estrelas”, “Nação Alien” e muitas outras.

Os trekkies, por sua vez, conhecem Foster por seus romances da série “Star Trek Logs” (escritos entre 1974 e 1978 com base em “Jornada nas Estrelas: A Série Animada”) e por receber o crédito de história no filme “Star Trek: O Filme” (1979), dirigido por Robert Wise. Trata-se de um dos raros créditos em filmes ou programas de TV em seu currículo, já que Foster acabou optando por escrever livros em vez de seguir carreira em Hollywood.

Admiral Kirk looking at something with intensity in Star Trek: The Motion Picture

No entanto, quando se trata de seu crédito em “Star Trek: O Filme”, Foster teve de lutar por ele. Conforme explicado no livro de história oral “The Fifty-Year Mission: The Complete, Uncensored, Unauthorized Oral History of Star Trek: The First 25 Years”, editado por Mark A. Altman e Edward Gross, o criador de “Star Trek”, Gene Roddenberry, tentou privá-lo de seu crédito. Por causa disso, Foster precisou entrar com um recurso para ter seu nome reinserido na obra. Roddenberry estava de férias na época, o que permitiu que o pedido de Foster fosse bem-sucedido, encerrando uma saga que teve início muitos anos antes.

Alan Dean Foster escreveu o argumento original que deu origem a Star Trek: O Filme

A glory shot of the USS Enterprise from Star Trek: The Motion Picture

“Star Trek: O Filme” teve início como uma série de TV de “Star Trek” idealizada por Gene Roddenberry que se chamaria “Star Trek: Phase II”. Alan Dean Foster envolveu-se no projeto desde o início, escrevendo um argumento para o episódio piloto da série, intitulado “In Thy Image”. A premissa envolvia uma sonda da NASA dos tempos modernos que retornava à Terra séculos depois de adquirir senciência de forma misteriosa. Essa trama acabou se tornando a história oficial de “Star Trek: O Filme”.

De acordo com o roteirista creditado Harold Livingston em “The Fifty-Year Mission”, os créditos originais apresentados ao sindicato dos roteiristas (WGA) indicavam roteiro de Livingston e história de Gene Roddenberry, deixando Foster de fora. Livingston afirmou ter tentado intermediar um acordo entre Roddenberry e Foster para que ambos compartilhassem o crédito de história, mas Roddenberry odiou a ideia. “Ele ficou furioso“, explicou Livingston.

Conforme Foster recordou:

“A primeira coisa que fizeram foi tentar negar o meu crédito na tela. Quando os créditos foram enviados para registro no Sindicato, diziam: ‘Roteiro de Gene Roddenberry e Harold Livingston, história de Gene Roddenberry’. Eu sou uma pessoa muito tranquila. Sou do tipo que acredita que um aperto de mão é um contrato. Liguei para o meu agente e perguntei: ‘O que está acontecendo?’. E ele disse: ‘Ah, não é nada’. ‘Como assim não é nada?'”

O agente de Foster tentou minimizar a situação como “coisa de negócios”, mas o autor continuou revoltado. Seu agente sugeriu então que ele entrasse com um pedido formal de crédito de história, e foi exatamente o que ele fez.

Alan Dean Foster recorreu formalmente para garantir seu crédito

Admiral Kirk and Sulu on the bridge of the Enterprise in Star Trek: The Motion Picture

Alan Dean Foster sentiu que estava totalmente no seu direito de reivindicar o crédito pela história, visto que contribuiu com “98% da escrita do argumento”. Harold Livingston, atuando como intermediário entre Foster e Gene Roddenberry, apontou que, embora Roddenberry estivesse agindo de forma difícil, isso não significava que Foster precisasse guardar rancor.

Foster concordou em dividir o crédito de história, já que admitia que seu argumento baseava-se em uma ideia de uma página escrita originalmente por Roddenberry. Contudo, as férias de Roddenberry resultaram em um golpe de sorte. Como Foster relatou:

“Recebi então uma carta muito estranha dizendo que Gene Roddenberry estava em La Costa se recuperando; ele estava muito cansado, muito ocupado e realmente não tinha tempo para aquilo. Eu apenas dei risada. Isso é vida real ou jardim de infância? Joguei os braços para o alto e disse ‘Tá bom, tanto faz’, e é por isso que fiquei com o crédito exclusivo de história no filme.”

Tendo trabalhado tanto na franquia “Star Wars” quanto em “Star Trek” até aquele momento, Foster observou as grandes diferenças entre seus respectivos criadores: George Lucas e Roddenberry. Roddenberry representava o padrão de Hollywood, enquanto Lucas era anti-Hollywood. Lucas, esclareceu Foster, preocupava-se menos com marcas registradas e créditos e estava mais entusiasmado em compartilhar uma ideia com o mundo. Ele era “o garoto quieto no fundo da sala que quase nunca fala”. Em contrapartida, “Gene era do tipo ‘EU SOU STAR TREK'”, conforme descreveu Foster.

Como nota final, embora o filme seja frequentemente acusado de ser monótono, “Star Trek: O Filme” torna-se muito mais interessante quando se compreende como apreciá-lo corretamente.

emanoel.pereira

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