Tem coragem Não Críticas,Críticas de Filmes,Destaques Slider,Filme em Destaque,Notícias Crítica | Resident Evil finalmente entende como transformar a experiência dos games em cinema

Adaptar um videogame para o cinema continua sendo um dos grandes desafios de Hollywood. Afinal, não basta transportar personagens, cenários e criaturas para a tela grande. O cinema precisa encontrar uma maneira de reproduzir uma experiência que, nos games, depende diretamente da interação do jogador.

É justamente nesse aspecto que o novo Resident Evil encontra seu maior diferencial. Dirigido por Zach Cregger, de Noites Brutais e A Hora do Mal, o filme aposta em uma história inédita dentro do universo da franquia e, em vez de tentar reproduzir simplesmente personagens ou acontecimentos conhecidos dos jogos, procura transportar para o cinema a própria sensação de jogar.

A história acompanha Bryan (Austin Abrams), um jovem que trabalha fazendo transporte de órgãos. Durante uma entrega, ele recebe uma nova incumbência que precisa ser levada para Raccoon City. No caminho, porém, ele atropela uma mulher e acaba envolvido em uma situação cada vez mais estranha e perigosa.

A partir daí, Bryan se vê diante de pessoas e animais contaminados, criaturas violentas e acontecimentos que parecem estar ligados ao destino de sua entrega. Sem entender completamente o que está acontecendo, ele precisa encontrar uma maneira de sobreviver enquanto tenta compreender aquele cenário.

Uma adaptação que entende os games

O principal mérito de Cregger está na forma como ele utiliza elementos da linguagem dos videogames sem transformar o filme em uma simples reprodução de uma fase de Resident Evil.

Logo no início, algumas situações remetem diretamente à maneira como os personagens e ambientes funcionam nos jogos. Bryan entra em um hospital e encontra pessoas que parecem fazer parte do cenário, com interações bastante limitadas. Quando finalmente consegue estabelecer contato com um personagem, a sequência ganha uma estrutura semelhante às cutscenes que interrompem a jogabilidade para desenvolver a história.

Esse tipo de referência continua ao longo do filme.

A câmera acompanha Bryan em diferentes situações de maneira semelhante ao que seria visto durante uma partida. Há sequências em primeira pessoa, momentos em que o protagonista precisa observar cuidadosamente o ambiente e cenas que remetem aos chamados quick time events, recurso bastante utilizado por diferentes franquias de videogame.

O resultado é uma das adaptações que melhor conseguem reproduzir visualmente a experiência de jogar.

A diferença é que essas referências não aparecem apenas como acenos para os fãs. Elas fazem parte da própria narrativa e ajudam a construir a sensação de insegurança que caracteriza os jogos.

Terror acima da ação

A nova produção também segue um caminho diferente dos filmes dirigidos por Paul W. S. Anderson e estrelados por Milla Jovovich, que transformaram a franquia em uma série de ação com elementos de terror.

Também se distancia de Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, de 2021, que tentou se aproximar mais da mitologia dos games e de personagens conhecidos.

Desta vez, Cregger prefere criar uma história própria.

A ausência de protagonistas tradicionais da franquia pode inicialmente causar estranhamento entre os fãs, mas a escolha permite que o filme concentre sua atenção em Bryan e na experiência de sobrevivência.

O terror também ocupa um espaço maior. Em vez de depender apenas de grandes confrontos, o filme trabalha com a sensação de isolamento e insegurança do protagonista. Os monstros são apresentados como ameaças reais, enquanto os ambientes ajudam a criar uma atmosfera mais sufocante.

A influência de O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, também aparece em diferentes momentos, especialmente na ambientação gelada, no uso de animais e no design das criaturas e efeitos práticos.

Austin Abrams sustenta a produção

Grande parte do funcionamento do filme depende de Austin Abrams, que passa boa parte da produção carregando a narrativa praticamente sozinho.

Bryan não é apresentado como um especialista preparado para enfrentar aquele universo. Pelo contrário: ele precisa aprender enquanto a situação piora.

O personagem corre, atira, se assusta, comete erros e tenta entender como lidar com as criaturas que aparecem pelo caminho. Essa característica ajuda a aproximá-lo da experiência de um jogador que está conhecendo aquele universo pela primeira vez.

Abrams consegue sustentar tanto os momentos de tensão quanto as situações mais leves e dramáticas. A atuação é particularmente importante porque, sem um protagonista carismático, a estrutura mais isolada do filme poderia facilmente perder força.

O humor pode dividir opiniões

Se existe um elemento capaz de dividir o público, é o humor.

Cregger já demonstrava essa característica em seus trabalhos anteriores e mantém a mistura de terror e comédia em Resident Evil. Algumas piadas funcionam justamente por surgirem da reação de Bryan diante de situações absurdas e assustadoras.

Em determinados momentos, porém, o humor pode interromper a tensão construída pela narrativa.

Para quem espera um filme de terror mais sombrio e constante, essa escolha pode causar estranhamento. Por outro lado, o recurso também ajuda a caracterizar Bryan como alguém comum enfrentando acontecimentos completamente fora da realidade.

A própria franquia Resident Evil sempre teve uma relação particular com o exagero e o absurdo. A diferença é que Cregger utiliza esses elementos dentro de uma estrutura predominantemente voltada para o terror de sobrevivência.

Uma nova possibilidade para Resident Evil no cinema

O novo Resident Evil não depende de reproduzir personagens conhecidos ou acontecimentos específicos dos jogos para estabelecer sua identidade.

Sua principal preocupação parece ser outra: fazer o público experimentar, no cinema, algumas das sensações que tornaram os games tão populares.

A tensão antes de abrir uma porta. A necessidade de observar um corredor escuro. A preocupação com os recursos disponíveis. O desconhecimento sobre o que está esperando na próxima sala.

Nesse sentido, a produção de Cregger encontra uma solução interessante para um dos maiores problemas das adaptações de videogame.

Em vez de simplesmente transformar o jogo em filme, Resident Evil tenta transformar a experiência de jogar em uma experiência cinematográfica.

E essa talvez seja a maior qualidade da nova produção: mesmo apresentando uma história própria e um protagonista que não pertence à galeria tradicional da franquia, o filme consegue preservar elementos fundamentais da identidade de Resident Evil.

Para os fãs dos games, há referências visuais e narrativas suficientes para reconhecer aquele universo. Para quem nunca jogou, a história funciona como uma aventura de terror e sobrevivência independente.

Depois de diferentes tentativas de levar a franquia da Capcom para o cinema, Zach Cregger encontra um caminho próprio e mostra que uma adaptação não precisa copiar o material original para respeitá-lo. Às vezes, basta entender por que aquele material funciona em primeiro lugar.

Detalhes do Filme

Direção Zach Cregger
Avaliação 9.5/10
Gênero Terror
País EUA

Trailer / Vídeo

emanoel.pereira

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