A teledramaturgia brasileira viveu uma terça-feira (18) marcada por profunda tristeza. Em um curto intervalo de tempo, o país perdeu duas de suas atrizes mais emblemáticas e respeitadas: Glória Menezes, aos 91 anos, e Laura Cardoso, aos 98 anos. Ambas foram pioneiras na construção da cultura audiovisual nacional e deixaram marcas profundas na televisão, no teatro e no cinema.
Glória Menezes: Elegância e pioneirismo nas telas e palcos

Glória Menezes faleceu em sua residência, no Rio de Janeiro. Nascida Nilcedes Soares de Magalhães em Pelotas (RS), em outubro de 1934, a gaúcha descobriu a vocação artística na Escola de Arte Dramática (EAD). Chamou a atenção de Antunes Filho já em seu primeiro trabalho profissional, na peça Devoção à Cruz, que lhe rendeu o prêmio de Atriz Revelação.
Sua trajetória na TV começou na pioneira TV Tupi, na obra Um Lugar ao Sol (1959). Nos anos seguintes, Glória construiu uma carreira sólida na TV Globo e tornou-se sinônimo de sofisticação e talento. Acumulou mais de 40 produções televisivas entre novelas e séries, destacando-se em marcos como:
- Guerra dos Sexos (1983)
- Rainha da Sucata (1990)
- Brega & Chique (1987)
- A Favorita (2008)
- Irmãos Coragem (1970) e Corpo a Corpo (1984)
No cinema, gravou seu nome na história do audiovisual mundial ao estrelar O Pagador de Promessas (1962) — único filme brasileiro galardoado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
Sua vida pessoal e profissional esteve entrelaçada por 59 anos à do ator Tarcísio Meira, com quem se casou em 1962 após se conhecerem nos bastidores de As Feiticeiras de Salém. Juntos, formaram o casal mais icônico da história da televisão brasileira até o falecimento do ator, em 2021. Nos últimos anos, Glória optou por um cotidiano reservado no Rio de Janeiro, ao lado dos filhos.
Laura Cardoso: Oitenta anos de dedicação ininterrupta à representação

Laura Cardoso faleceu em São Paulo, na noite de segunda-feira (17) para terça-feira (18), de causas naturais. Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni no bairro da Bela Vista, em São Paulo, em setembro de 1927, era filha de imigrantes portugueses.
Laura começou na atuação ainda na juventude, estreando aos 15 anos nas radionovelas da Rádio Cosmos em 1942. Foi uma das pioneiras na transição para a televisão, estreando em 1952 no programa Tribunal do Coração, da TV Tupi. Ao longo de mais de 80 anos de carreira, acumulou mais de 100 papéis e esteve em produções inesquecíveis:
- Mulheres de Areia (1993): viveu Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel.
- A Viagem (1994): interpretou a marcante Guiomar em uma das tramas espirituais mais celebradas da TV.
- Explode Coração (1995): deu vida à cigana Soraya, na produção histórica que inaugurou as gravações no Projac.
- Chocolate com Pimenta (2003): arrancou risos do público como a avó caipira Carmem.
- Caminho das Índias (2009): interpretou a matriarca Laksmi Ananda na novela vencedora do Emmy Internacional.
Sem nunca cogitar a aposentadoria, manteve-se ativa até os últimos anos de vida. Em 2025, aos 97 anos, gravou o curta-metragem Dona Rosinha, seu último trabalho no cinema. Laura foi uma das atrizes mais premiadas do país, somando troféus do Prêmio Shell, APCA, Troféu Imprensa e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (Prêmio Grande Otelo), além de ter sido condecorada com a Ordem do Mérito Cultural em 2006.
O encontro de duas trajetórias no topo da teledramaturgia
Apesar das origens distintas — Glória com formação na escola de teatro e Laura com raiz nas radionovelas —, as duas artistas compartilharam palcos e cenários em produções históricas da TV brasileira. Estiveram juntas nos elencos de novelas como Irmãos Coragem (1995), Rainha da Sucata (1990) e Ídolo de Pano (1975).
A partida simultânea de Glória Menezes e Laura Cardoso encerra um ciclo de ouro da teledramaturgia nacional. As duas veteranas não apenas testemunharam o nascimento da televisão no Brasil, como ajudaram a moldar a linguagem da atuação no país por meio de determinação, versatilidade e amor absoluto à arte.
