No A única Saída (Other Choice) não é apenas mais um filme na filmografia impecável de Park Chan-wook. É uma daquelas obras que parecem conversar diretamente com o espectador, cutucando medos muito reais — desemprego, perda de status, fracasso — enquanto ri da nossa obsessão coletiva por sucesso e estabilidade.
A premissa é simples, mas perturbadora. Man-su, vivido de forma brilhante por Lee Byung-hun, é demitido após 25 anos trabalhando na mesma fábrica de papel. Ele tem casa própria, família estruturada e uma identidade completamente moldada pelo trabalho. Quando tudo isso começa a ruir, o desespero fala mais alto — e Man-su decide que, se não há vagas suficientes, talvez seja preciso eliminar a concorrência.
Quando o humor nasce do desespero

O filme começa quase como um drama doméstico. Vemos Man-su celebrando sua estabilidade ao lado da esposa Mi-ri (interpretada com sensibilidade por Son Ye-jin), dos filhos e de uma rotina confortável. A demissão repentina, causada pela aquisição da empresa por um grupo americano, quebra esse equilíbrio de forma brutal.
A partir daí, Park Chan-wook constrói uma espiral descendente fascinante. Man-su não consegue emprego, vê a esposa voltar ao mercado de trabalho, precisa abrir mão de pequenos luxos — e até dos cães da família. Cada perda pesa, não apenas financeiramente, mas emocionalmente. O filme nunca força o humor: ele surge naturalmente do absurdo da situação e da obstinação quase patética do protagonista em continuar trabalhando numa indústria claramente em declínio.
É aqui que No Other Choice se revela uma comédia sombria de primeira linha. Ninguém faz piadas. Ninguém exagera conscientemente. Ainda assim, é impossível não rir do contraste entre a seriedade com que Man-su executa seu plano e o quão absurdo tudo aquilo é.
Um retrato universal disfarçado de sátira coreana
Embora mergulhe profundamente na cultura hierárquica da Coreia do Sul, o filme nunca se fecha em si mesmo. A ideia de que nosso valor está diretamente ligado ao cargo que ocupamos é universal. Seja em Seul, São Paulo ou Nova York, o medo de “não ser ninguém” sem um emprego ressoa forte.
Lee Byung-hun entrega uma de suas atuações mais completas. Diferente da frieza calculada vista em Squid Game, aqui ele transita entre frustração, humilhação, raiva e um desespero quase infantil por validação. É impossível não se identificar com Man-su, mesmo quando suas ações ultrapassam qualquer limite moral.
Son Ye-jin também merece destaque. Sua Mi-ri nunca é apenas “a esposa”. Ela oscila entre desconfiança, cansaço e amor genuíno, funcionando como o contraponto emocional que mantém o filme ancorado na realidade.
Técnica impecável e um final memorável

Cocriado por Park Chan-wook ao lado de Lee Kyoung-mi, Lee Ja-hye e Don McKellar, o roteiro adapta o romance The Ax, de Donald E. Westlake, transformando um thriller seco em uma narrativa mais rica, irônica e surpreendentemente atual.
Visualmente, o filme é deslumbrante. A fotografia de Kim Woo-hyung cria quadros meticulosos, cheios de detalhes que ganham novos significados a cada cena. A trilha sonora de Jo Yeong-wook, com influências de jazz e Mozart, acrescenta uma camada irônica deliciosa, reforçando o tom elegante e cruel da história.
Com 140 minutos de duração, No Other Choice surpreende pelo ritmo ágil. Quando os créditos finais surgem — após um dos melhores desfechos do cinema recente — a sensação é de que o tempo passou rápido demais.
Um filme que ri de nós… e por isso assusta
Talvez a melhor forma de definir No Other Choice seja esta: imagine Um Homem Sério, dos Irmãos Coen, ambientado em uma versão sul-coreana da Dunder Mifflin. Ainda assim, essa comparação não faz justiça à originalidade do filme.
Park Chan-wook entrega aqui uma obra afiada, elegante e profundamente humana. Um thriller que provoca tensão e gargalhadas na mesma medida, e que nos faz encarar uma pergunta incômoda: quem somos nós quando o trabalho deixa de nos definir?
No fim das contas, o próprio título se impõe. Não há outra escolha a não ser assistir a No Other Choice — de preferência na tela grande.
O filme está em cartaz em circuito limitado e estreia nacionalmente em janeiro.
