Tem coragem Não Notícias SXSW 2025: “Corrida dos Bichos”, “Campeón Gabacho” e “Grind” exploram um mundo em colapso

O SXSW 2025 segue se mostrando um espaço fértil para obras que refletem as tensões do mundo contemporâneo. Em meio a narrativas que transitam entre o caos social, a desigualdade e o impacto do capitalismo avançado, três produções chamaram atenção por suas abordagens intensas e, em alguns momentos, provocativas: Corrida dos Bichos, Campeón Gabacho e Grind.

Mais do que simples histórias, os filmes apresentados funcionam como retratos de um mundo em desgaste, onde a arte se torna um canal direto para expressar revolta, confusão e, curiosamente, esperança.


“Corrida dos Bichos” aposta alto, mas tropeça na execução

Dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, Corrida dos Bichos (Beast Race) apresenta uma proposta ambiciosa ao misturar ação, crítica social e ficção distópica.

Ambientado em um futuro onde o Rio de Janeiro sofre uma transformação radical após a secagem da Baía de Guanabara, o filme mostra uma sociedade dominada por elites que transformam o caos em entretenimento. Nesse cenário, surge uma competição brutal onde participantes arriscam suas vidas em corridas mortais — com familiares usados como garantia.

A trama acompanha Mano, vivido por Matheus Abreu, que entra no jogo para salvar sua irmã Dalva, interpretada por Thainá Duarte.

Visualmente, o filme impressiona. A cinematografia de Gustavo Hadba entrega sequências dinâmicas que colocam o espectador no centro da ação. No entanto, apesar da energia, a narrativa sofre com falta de identidade própria. As inspirações são claras — de Jogos Vorazes a The Running Man —, mas o longa não consegue se destacar o suficiente.

Com mais de duas horas de duração, o ritmo também pesa contra a experiência, com repetições nas sequências de corrida e conflitos dramáticos pouco desenvolvidos.


“Campeón Gabacho” emociona e surpreende

Se Corrida dos Bichos divide opiniões, Campeón Gabacho, dirigido por Jonás Cuarón, surge como um dos grandes destaques do festival.

O filme acompanha Libório (Juan Daniel García Treviño), um imigrante mexicano que chega a Nova York em busca de uma vida melhor — apenas para se deparar com uma realidade dura marcada por xenofobia, exploração e desigualdade.

A narrativa ganha força ao equilibrar drama e criatividade visual. Elementos surrealistas ajudam a traduzir emoções internas dos personagens, como em momentos em que o romance literalmente transcende a realidade.

Com influências que lembram o estilo direto de Fleabag, o protagonista quebra a quarta parede para comentar sua própria jornada, criando uma conexão imediata com o público.

O resultado é um filme que mistura dor, esperança e identidade com uma energia rara — ao mesmo tempo íntimo e grandioso.


“Grind” transforma o terror em crítica social

Fechando a seleção, Grind aposta no formato de antologia para explorar os impactos da chamada “gig economy”.

Dirigido por Brea Grant, Ed Dougherty e Chelsea Stardust, o filme apresenta histórias curtas que abordam diferentes formas de trabalho precarizado — de entregadores a moderadores de conteúdo online.

Cada segmento leva uma ideia cotidiana ao extremo:

  • Uma vendedora enfrenta consequências aterrorizantes por não bater metas
  • Um entregador fica preso em um loop temporal
  • Um moderador enlouquece ao consumir conteúdos violentos
  • Trabalhadores cogitam se sindicalizar em meio a situações bizarras

O tom oscila entre o absurdo e o perturbador, mas nunca perde o foco: mostrar como sistemas modernos podem explorar indivíduos de maneira desumanizante.

Apesar de irregular em alguns momentos, Grind se destaca pela ousadia e pela forma como transforma ansiedade contemporânea em horror palpável.


Um retrato inquietante do presente

Juntos, os três filmes reforçam uma tendência clara no SXSW: o cinema como ferramenta de questionamento.

Seja através da ação distópica, do drama humano ou do terror social, essas produções compartilham uma mesma inquietação — como sobreviver em um mundo cada vez mais desigual, acelerado e impessoal.

Entre acertos e falhas, o que fica é a sensação de que o cinema continua sendo um espaço vital para refletir, provocar e, principalmente, resistir.

emanoel.pereira

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