Tem coragem Não Críticas,Críticas de Filmes,Notícias Undertone | Crítica: terror da A24 aposta no som para assustar, mas entrega menos do que promete

Nos últimos anos, a A24 se tornou um dos nomes mais respeitados quando o assunto é terror moderno. Filmes do estúdio frequentemente apostam em atmosferas densas, ideias autorais e conceitos incomuns para assustar o público.

Por isso, quando Undertone começou a chamar atenção no circuito de festivais, a expectativa naturalmente cresceu. O longa estreou no Fantasia International Film Festival e depois apareceu na seção Midnight do Sundance Film Festival, conquistando boas reações iniciais.

A premissa é bastante interessante: e se um podcast paranormal começasse a revelar algo que ultrapassa o mundo digital e começa a afetar o mundo real?

Infelizmente, apesar da ideia promissora, o filme raramente consegue transformar esse conceito em uma experiência realmente marcante.


A história

A trama acompanha Evy, interpretada por Nina Kiri, uma apresentadora de um podcast dedicado a investigar fenômenos sobrenaturais que circulam pela internet. Enquanto produz o programa com seu colega Justin — vivido por Adam DiMarco — ela também enfrenta um momento difícil na vida pessoal: cuidar de sua mãe gravemente doente, interpretada por Michèle Duquet.

A rotina muda quando o podcast recebe um e-mail contendo dez misteriosas gravações de áudio enviadas por um casal que afirma estar vivendo eventos paranormais dentro de casa.

Nos arquivos, a mulher fala enquanto dorme, aparentemente pronunciando frases ao contrário. Conforme Evy começa a analisar os áudios, ela percebe que existem mensagens escondidas ali — referências a cantigas infantis clássicas como “Baa Baa Black Sheep” e “Rock-a-bye Baby” — que parecem revelar uma mitologia envolvendo possessão demoníaca e sacrifícios.

À medida que continua ouvindo as gravações, acontecimentos estranhos começam a ocorrer ao seu redor. O que antes parecia apenas material para um episódio do podcast passa a assumir contornos cada vez mais perturbadores.


Terror construído pelo som

Com um orçamento extremamente baixo — cerca de 500 mil dólares — o diretor Ian Tuason aposta em uma abordagem minimalista. Grande parte do filme se passa em um único ambiente, com Evy praticamente sozinha em cena.

Nesse contexto, o verdadeiro protagonista de Undertone acaba sendo o design de som.

As gravações perturbadoras que Evy recebe criam momentos de tensão genuína, explorando ruídos, silêncios e distorções para sugerir algo sobrenatural se infiltrando lentamente na narrativa.

É uma escolha criativa interessante e, em alguns momentos, realmente eficaz.


Um conceito que se estende demais

O problema é que o filme demora muito para avançar.

Boa parte da narrativa consiste simplesmente em Evy ouvindo as gravações e reagindo a elas. Embora a atmosfera funcione em certos momentos, a história acaba parecendo esticada demais para sustentar um longa-metragem.

São cerca de oitenta minutos de preparação para apenas alguns minutos de recompensa narrativa.

Para alguns espectadores, esse ritmo lento pode funcionar como construção de tensão. Para outros, pode parecer apenas repetitivo.


Personagens pouco desenvolvidos

Outro ponto que enfraquece a experiência é o desenvolvimento dos personagens.

Apesar de Nina Kiri entregar uma performance competente, Evy nunca ganha uma personalidade realmente marcante. Sabemos muito pouco sobre ela além de sua rotina com o podcast e do drama familiar envolvendo a mãe.

O mesmo vale para Justin, que sequer aparece em cena na maior parte do filme, funcionando mais como uma voz fora da tela.

Com isso, o espectador acaba tendo pouca conexão emocional com a história.


Um terror que divide opiniões

É fácil entender por que Undertone chamou atenção em festivais. O filme tem uma proposta moderna, dialoga com a cultura de podcasts e tenta criar terror a partir de elementos sonoros.

Mas também é um tipo de experiência que depende muito da expectativa do público.

Quem procura algo minimalista, experimental e focado na atmosfera pode encontrar aqui um terror interessante.

Já espectadores mais acostumados com narrativas de horror mais dinâmicas provavelmente sairão com a sensação de que o filme não entrega tudo o que promete.


Vale a pena assistir?

No final das contas, Undertone é um experimento curioso dentro do terror independente.

O design de som é impressionante e o diretor merece crédito por conseguir construir um longa funcional com recursos tão limitados.

Ainda assim, a sensação que permanece é de que o filme poderia ter explorado muito mais sua própria premissa.

Com mais desenvolvimento narrativo e personagens mais fortes, talvez o resultado fosse algo realmente memorável. Do jeito que está, Undertone funciona mais como um conceito interessante do que como um grande filme de terror.

emanoel.pereira

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